142. Um certo número de verdades
A propósito de uma sugestão que um amigo deixou aí abaixo, lembrei-me de uma conferência que João de Meira (uma das inteligências mais fulgurantes que algum dia passaram por Guimarães) deixou inédita à data da sua morte, que seria, alguns anos mais tarde, publicada na Revista de Guimarães.
Começava assim:
"Não conhecermos a nossa própria história, diz um escritor moderno, é de bárbaro; conhecê-la, porém, viciada, tecida de burlas e de piedosas fraudes, é pior. Porque, no primeiro caso, com não sabermos quem somos, nem nos dizerem donde viemos, essa mesma ignorância obstará a que perpetremos muitos desconcertos; ao passo que, se laborarmos no vício de uma falsa informação, daremos muitas vezes, com a memória das fábulas que nos tiverem ensinado, razão sobeja e justificada a que se riam de nós."
E terminava deste modo:
“E dar-me-ei por feliz, se os que me escutaram gravarem na memória um certo número de verdades que são geralmente ignoradas ou desprezadas:
I - Guimarães nasceu em volta do convento fundado por Mumadona numa quinta sua, no meado do século X. Anteriormente a esta data, não existia no local onde nos encontramos qualquer agregado urbano. Como consequência: nem Guimarães pode ter sido a Araduca de Ptolomeu, nem S. Dâmaso, que viveu no século IV, pode ter sido vimaranense.
II - A Igreja de S. Tiago foi construída pelos franceses que acompanharam o Conde D. Henrique, e na sua descendência se manteve muitos anos, Como consequência: esta igreja não pode ter sido templo de Ceres, nem S. Tiago a pode ter cristianizado.
III - O castelo de Guimarães chamava-se de S. Mamede. Os documentos coevos dizem que a batalha de S. Mamede se feriu junto do Castelo. Como consequência: a batalha entre D. Afonso I e sua mãe não se deu em qualquer ponto do Vale de S. Torcato.
IV - Nenhum documento coevo diz que D. Afonso Henriques nascesse em Guimarães, Os primeiros livros que referem o nascimento em Guimarães datam do século XVII e não alegam autoridade mais antiga. Como consequência: é incerta a naturalidade de D. Afonso Henriques.
V - O Arcebispo S. Geraldo já tinha falecido em 1109. Como consequência: não é provável que baptizasse o rei, nascido, ao que parece, em 1111.
Cientes disto e do mais que expus, nem daremos motivo a que nos chamem bárbaros por não conhecermos a nossa história, nem nos prestaremos ao riso por a narrarmos amplificada com fábulas inconsistentes.
Disse.”
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7 Réplicas:
Engraçado como em duas penadas se deita por terra boa parte do mitos da terra.
E se "os documentos coevos dizem que a batalha de S. Mamede se feriu junto do Castelo" o que raio estão a fazer aqueles herois de granito num campo a caminho da vila de S. Torcato (hoje mais usado para concentrações de adeptos de tunning nas tardes de Primavera...) inagurados com pompa aquando de um congresso histórico?
Caro Diuner de Guimarães,
A pesquisar de forma tão profunda a nossa história, corremos o risco de não existirmos, o que seria uma pena, porque já estamos habituados.
Antes pelo contrário, meu caro Doménico. Se há algo de que Guimarães se pode orgulhar, e orgulha, é da sua História. Agora, a História e a lenda nem sempre são conciliáveis.
Fosse eu de dar conselhos, aconselhava a leitura integral do texto do João de Meira, onde se prova que uma visão lúcida sobre as coisas da nossa História não implica, bem pelo contrário, menos amor a esta terra e ou ao seu património histórico.
Cumprimentos,
Diuner
Caro Diuner de Guimarães,
Interrogo-me se não será melhor viver com a ilusão das petas, do que com a realidade, nua e crua,das letras...
Cumprimentos
O João de Meira preferia a verdade às petas. Quanto a mim, vai conforme o lado para onde estiver virado.
A História faz-se de factos e não de ficções (embora às vezes não seja assim tão linear a dita ciência). Mas a ideitidade de Guimarães deve fazer-se com os factos. Esses ninguém os muda. Quanto às lendas já não digo o mesmo...
Se formos feitos de ilusão correms o risco de desvanencer. Não é isso que desejamos à nossa cidade, pois não?
Caro Samuel Silva,
A História faz-se acima de tudo de conveniências de vários tipos, religiosas, politicas etc. E quase sempre com os "factos" ou "verdades" dos vencedores.
Se olharmos para a grandeza do nosso passado, interrogamo-nos pela pequenez do nosso presente, e por aí talvez se perceba que há muita história que nos foi mal contada.
Cumprimentos
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