20 Fevereiro 2007

142. Um certo número de verdades

A propósito de uma sugestão que um amigo deixou aí abaixo, lembrei-me de uma conferência que João de Meira (uma das inteligências mais fulgurantes que algum dia passaram por Guimarães) deixou inédita à data da sua morte, que seria, alguns anos mais tarde, publicada na Revista de Guimarães.

Começava assim:

"Não conhecermos a nossa própria história, diz um escritor moderno, é de bárbaro; conhecê-la, porém, viciada, tecida de burlas e de piedosas fraudes, é pior. Porque, no primeiro caso, com não sabermos quem somos, nem nos dizerem donde viemos, essa mesma ignorância obstará a que perpetremos muitos desconcertos; ao passo que, se laborarmos no vício de uma falsa informação, daremos muitas vezes, com a memória das fábulas que nos tiverem ensinado, razão sobeja e justificada a que se riam de nós."

E terminava deste modo:

“E dar-me-ei por feliz, se os que me escutaram gravarem na memória um certo número de verdades que são geralmente ignoradas ou desprezadas:

I - Guimarães nasceu em volta do convento fundado por Mumadona numa quinta sua, no meado do século X. Anteriormente a esta data, não existia no local onde nos encontramos qualquer agregado urbano. Como consequência: nem Guimarães pode ter sido a Araduca de Ptolomeu, nem S. Dâmaso, que viveu no século IV, pode ter sido vimaranense.

II - A Igreja de S. Tiago foi construída pelos franceses que acompanharam o Conde D. Henrique, e na sua descendência se manteve muitos anos, Como consequência: esta igreja não pode ter sido templo de Ceres, nem S. Tiago a pode ter cristianizado.

III - O castelo de Guimarães chamava-se de S. Mamede. Os documentos coevos dizem que a batalha de S. Mamede se feriu junto do Castelo. Como consequência: a batalha entre D. Afonso I e sua mãe não se deu em qualquer ponto do Vale de S. Torcato.

IV - Nenhum documento coevo diz que D. Afonso Henriques nascesse em Guimarães, Os primeiros livros que referem o nascimento em Guimarães datam do século XVII e não alegam autoridade mais antiga. Como consequência: é incerta a naturalidade de D. Afonso Henriques.

V - O Arcebispo S. Geraldo já tinha falecido em 1109. Como consequência: não é provável que baptizasse o rei, nascido, ao que parece, em 1111.

Cientes disto e do mais que expus, nem daremos motivo a que nos chamem bárbaros por não conhecermos a nossa história, nem nos prestaremos ao riso por a narrarmos amplificada com fábulas inconsistentes.

Disse.”

João de Meira, "Guimarães. 950-1580. Conferência inédita". Revista de Guimarães n.º 31, 1921, p. 119-151

Etiquetas: Guimarães

Nota de Diuner de Guimarães Às 15:49

7 Réplicas:

Blogger Samuel Silva disse...

Engraçado como em duas penadas se deita por terra boa parte do mitos da terra.

E se "os documentos coevos dizem que a batalha de S. Mamede se feriu junto do Castelo" o que raio estão a fazer aqueles herois de granito num campo a caminho da vila de S. Torcato (hoje mais usado para concentrações de adeptos de tunning nas tardes de Primavera...) inagurados com pompa aquando de um congresso histórico?

16:07  
Anonymous doménico disse...

Caro Diuner de Guimarães,
A pesquisar de forma tão profunda a nossa história, corremos o risco de não existirmos, o que seria uma pena, porque já estamos habituados.

01:32  
Blogger Diuner de Guimarães disse...

Antes pelo contrário, meu caro Doménico. Se há algo de que Guimarães se pode orgulhar, e orgulha, é da sua História. Agora, a História e a lenda nem sempre são conciliáveis.

Fosse eu de dar conselhos, aconselhava a leitura integral do texto do João de Meira, onde se prova que uma visão lúcida sobre as coisas da nossa História não implica, bem pelo contrário, menos amor a esta terra e ou ao seu património histórico.

Cumprimentos,
Diuner

09:29  
Anonymous doménico disse...

Caro Diuner de Guimarães,

Interrogo-me se não será melhor viver com a ilusão das petas, do que com a realidade, nua e crua,das letras...

Cumprimentos

01:09  
Blogger Diuner de Guimarães disse...

O João de Meira preferia a verdade às petas. Quanto a mim, vai conforme o lado para onde estiver virado.

10:40  
Blogger Samuel Silva disse...

A História faz-se de factos e não de ficções (embora às vezes não seja assim tão linear a dita ciência). Mas a ideitidade de Guimarães deve fazer-se com os factos. Esses ninguém os muda. Quanto às lendas já não digo o mesmo...
Se formos feitos de ilusão correms o risco de desvanencer. Não é isso que desejamos à nossa cidade, pois não?

13:58  
Anonymous doménico disse...

Caro Samuel Silva,
A História faz-se acima de tudo de conveniências de vários tipos, religiosas, politicas etc. E quase sempre com os "factos" ou "verdades" dos vencedores.
Se olharmos para a grandeza do nosso passado, interrogamo-nos pela pequenez do nosso presente, e por aí talvez se perceba que há muita história que nos foi mal contada.

Cumprimentos

22:12  

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